sexta-feira, 29 de agosto de 2014
As coisas que a vida tece
Andar por aí tem algumas exigências nomeadamente, arranjar quem me vigie
o "gado". E, inevitavelmente, a sorte calha sempre aos meus sobrinhos.
Às vezes é um, outras vezes é o outro. Mas desta vez foram os dois. "O Jota também pode ir?" - Pode. A este Jota acrescenta-se a novidade. O
pai deles, divorciado da minha irmã, está emigrado "na França". Tem mulher
"nova" e um enteado de 17 anos que veio com ele ao Porto: Tia, o G.
também pode ficar aí? - Os meus sobrinhos também lá vão e ninguém os
trata mal, o miúdo não tem culpa destas coisas. - Acedi e agora que penso
nisso: foda-se, somos uma família muito moderna! Aliás, sou quase uma
Sofia Vergara, só me faltam aumentar dois pormenores à frente e um pormenor
atrás.
Since 2006
Foram motivos profissionais que me trouxeram até ao Vale do Sousa. E
desde 2006 que abraço a tradição de ir à feira agrícola de Penafiel, a
Agrival. Sou várias coisas ao mesmo tempo e tenho um lado mais
finecas, mas a minha alma é jabarda, já o disse várias vezes. Aliás,
ontem recusei uma caipirinha por isso mesmo: Não, obrigada. Eu sou do
povo, gosto de cerveja e vinho.
- Que tal a Agrival?
- O costume: vacas, tractores, cavalos, pão com chouriço, artesanato da treta...
- Quim Barreiros?
- O Quim Barreiros já foi. Ontem era Quim Roscas e Zeca Estacionâncio, mas não vi. Consegui sair a tempo.
- Que tal a Agrival?
- O costume: vacas, tractores, cavalos, pão com chouriço, artesanato da treta...
- Quim Barreiros?
- O Quim Barreiros já foi. Ontem era Quim Roscas e Zeca Estacionâncio, mas não vi. Consegui sair a tempo.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Vai aonde te leva o comboio
Meio-dia e cinco, comboio com destino a Aveiro. Entro na última carruagem quase vazia que passará a primeira e cheia depois de Campanhã. Dois bancos à frente, lado esquerdo, está de frente para mim um casal estrangeiro de mochila. Lado direito, banco a seguir ao meu e de costas para mim encontra-se um senhor que faz lembrar o meu avô paterno.
O senhor fala com o casal de uma forma meiga, vagarosa e excessivamente alta. Explica-lhes em português que “agora, vamos assim, de costas. Depois de Campanhã, o comboio dá a volta e passamos a ir virados para a frente.” Os estrangeiros mostram alguma inquietação, nota-se pelo encorrilhado da testa que estão em esforço para compreender o que lhes está a ser dito ao mesmo tempo que tentam conferir o folheto das estações e apeadeiros. Pergunto-me porque raios está o senhor a explicar-lhes aquilo, está só e apenas a confundi-los. Mas o senhor, que veste uma camisa de manga curta bege e pousou o chapéu no banco da frente, continua a insistir. Faz desenhos no ar a simular a inversão de marcha do comboio. Aponta para as extremidades da composição: trás e depois, frente! O casal arregala os olhos, pareceu-me ouvir dizer Guimarães. Fico na dúvida se deverei perguntar o destino deles. Mas o senhor está há mais tempo com eles do que eu, não deve ser Guimarães o destino final. E fico calada.
Depois de tantas explicações portuguesas, o homem do casal levanta-se e, como que atingido pela iluminação divina, repete o desenho no ar com a meia-volta do comboio. E volto a ficar com a pulga atrás da orelha, a meia-volta dele pareceu-me grande de mais.
Entrada em Campanhã e o senhor levanta-se para demonstrar o que lhes estava a explicar por gestos e palavras. Entretanto a carruagem vai enchendo e três miúdas sentam-se nos bancos onde estava o senhor e perguntam de quem é o chapéu: é meu, só fui ali dar uma informação. São polacos. São uns polacos que vão para Espinho – diz, orgulhoso. Na posse desta informação, desisto da cisma.
Não desisti completamente, para isso tinha que os ver apearem-se em Espinho. E chegamos a Espinho, o senhor levantou-se e chamou-os com uma espécie de assobio e a mão em concha: é aqui, chegamos a Espinho. Os estrangeiros não se levantam. O senhor insiste mais uma vez, acaba por sair. Não pode esperar por eles. Espinho é o destino dele e eu só penso: Meu Deus, queres ver que é para Guimarães que eles querem ir e estão (foram) convencidos que o comboio faz “inversão de marcha” em Aveiro?
O senhor fala com o casal de uma forma meiga, vagarosa e excessivamente alta. Explica-lhes em português que “agora, vamos assim, de costas. Depois de Campanhã, o comboio dá a volta e passamos a ir virados para a frente.” Os estrangeiros mostram alguma inquietação, nota-se pelo encorrilhado da testa que estão em esforço para compreender o que lhes está a ser dito ao mesmo tempo que tentam conferir o folheto das estações e apeadeiros. Pergunto-me porque raios está o senhor a explicar-lhes aquilo, está só e apenas a confundi-los. Mas o senhor, que veste uma camisa de manga curta bege e pousou o chapéu no banco da frente, continua a insistir. Faz desenhos no ar a simular a inversão de marcha do comboio. Aponta para as extremidades da composição: trás e depois, frente! O casal arregala os olhos, pareceu-me ouvir dizer Guimarães. Fico na dúvida se deverei perguntar o destino deles. Mas o senhor está há mais tempo com eles do que eu, não deve ser Guimarães o destino final. E fico calada.
Depois de tantas explicações portuguesas, o homem do casal levanta-se e, como que atingido pela iluminação divina, repete o desenho no ar com a meia-volta do comboio. E volto a ficar com a pulga atrás da orelha, a meia-volta dele pareceu-me grande de mais.
Entrada em Campanhã e o senhor levanta-se para demonstrar o que lhes estava a explicar por gestos e palavras. Entretanto a carruagem vai enchendo e três miúdas sentam-se nos bancos onde estava o senhor e perguntam de quem é o chapéu: é meu, só fui ali dar uma informação. São polacos. São uns polacos que vão para Espinho – diz, orgulhoso. Na posse desta informação, desisto da cisma.
Não desisti completamente, para isso tinha que os ver apearem-se em Espinho. E chegamos a Espinho, o senhor levantou-se e chamou-os com uma espécie de assobio e a mão em concha: é aqui, chegamos a Espinho. Os estrangeiros não se levantam. O senhor insiste mais uma vez, acaba por sair. Não pode esperar por eles. Espinho é o destino dele e eu só penso: Meu Deus, queres ver que é para Guimarães que eles querem ir e estão (foram) convencidos que o comboio faz “inversão de marcha” em Aveiro?
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Pouca terra e muito chão
Dezassete e quarenta e oito, comboio com destino a Porto – São Bento. Cheguei à estação em cima da hora, só tive tempo para comprar o bilhete. O último cigarro antes de entrar foi adiado para primeiro cigarro depois de sair. Entro na última carruagem, já está tudo um bocadinho cheio. É impossível arranjar onde me sentar sozinha. Avisto duas senhoras, ambas já com alguma idade, posicionadas frente a frente num lugar de quatro. A uma só lhe vejo o carrapito bem enrolado no topo da cabeça. À outra, também com carrapito, vejo-lhe a saia e a camisa com o mesmo padrão floral. Vejo também que não consegue chegar com os pés ao chão e que a saia, na posição sentada, lhe sobe mais do que a religião lhe permite. Apesar do cenário, pensei que seria pacífico e que não haveria “embicanços” com os meus calções dois palmos acima dos joelhos.
Quando me sentei, o diálogo já ia avançado. Percebi que vinham de uma cerimónia, encontro ou ritual. Falavam de alguém, falavam de um homem que “não mandava nada, não é ele que manda” e, diziam, quem manda “está acima de nós”. Até aqui, nada de extraordinário. Depois começaram a falar de alguém que tinha deixado “de ir a todos e nem a Vizela ia” porque não tinha dinheiro, não trabalhava. “Não trabalhava porque não queria”, já lhe tinha ido pedir dinheiro. Só lhe deu uma vez, “foda-se e não leva mais. Que vá trabalhar! Não trabalha ela, nem ele. Andam a pedir gente nos pavilhões, ela que vá lá!” – dizia a senhora de camisola cinzenta e saia preta, agora já estava em condições de a ver melhor. Tinha-me sentado ao lado dela. Esta usava óculos de aros metalizados e chegava com os pés ao chão. A outra acenava afirmativamente e também ia acrescentando pormenores à história. Os caralho e foda-se fluíam por uma questão de pontuação. E iam olhando para mim à espera de reacção ao “as mulheres de hoje em dia querem viver à custa dos homens, foda-se para a chulice" e às variações dessa frase juntavam a segurança social e os rendimentos mínimos. Não percebi se me estavam a acusar ou a alertar. No entanto, mantive-me calada, puxei o mais que pude os calções e tapei o que pude com o saco. A tal, a que não trabalhava, já tinha três filhos. Não eram do mesmo pai e um estava numa instituição. “Não sei porque continuam a fazer filhos, as crianças não têm culpa. Nascem para sofrer!” – tive que lhes dar razão.
Mais uma paragem numa estação ou apeadeiro e entra uma senhora à procura de lugar. Senta-se ao lado da que traz o padrão floral em fundo azul celeste. O marido segue-a, mas não tem lugar e recua. A senhora do padrão oferece-se para sair e vagar o lugar. Mas a gentileza é recusada quando percebem que esta não vai sair na próxima: “Então, qual é o problema? O seu homem ficava ao pé de si. Agora não tenho homem. Mas quando tinha, ele gostava de estar ao pé de mim. Era muito fraco, não valia nada, mas gostava de estar ao pé de mim.” Sorrimos todas com ela, mas, ainda assim, a mágoa era evidente.
Com aproximação do destino, levantaram-se. Despedidas feitas, a de cinzento ficou para trás e disse-me: Olhe, você desculpe qualquer coisinha! Peço desculpa por algumas coisas que dissemos aqui, está bem? Agora tenho que ir para lhe dizer alguns “améns”, ela não pode usar saias tão curtas!
Quando me sentei, o diálogo já ia avançado. Percebi que vinham de uma cerimónia, encontro ou ritual. Falavam de alguém, falavam de um homem que “não mandava nada, não é ele que manda” e, diziam, quem manda “está acima de nós”. Até aqui, nada de extraordinário. Depois começaram a falar de alguém que tinha deixado “de ir a todos e nem a Vizela ia” porque não tinha dinheiro, não trabalhava. “Não trabalhava porque não queria”, já lhe tinha ido pedir dinheiro. Só lhe deu uma vez, “foda-se e não leva mais. Que vá trabalhar! Não trabalha ela, nem ele. Andam a pedir gente nos pavilhões, ela que vá lá!” – dizia a senhora de camisola cinzenta e saia preta, agora já estava em condições de a ver melhor. Tinha-me sentado ao lado dela. Esta usava óculos de aros metalizados e chegava com os pés ao chão. A outra acenava afirmativamente e também ia acrescentando pormenores à história. Os caralho e foda-se fluíam por uma questão de pontuação. E iam olhando para mim à espera de reacção ao “as mulheres de hoje em dia querem viver à custa dos homens, foda-se para a chulice" e às variações dessa frase juntavam a segurança social e os rendimentos mínimos. Não percebi se me estavam a acusar ou a alertar. No entanto, mantive-me calada, puxei o mais que pude os calções e tapei o que pude com o saco. A tal, a que não trabalhava, já tinha três filhos. Não eram do mesmo pai e um estava numa instituição. “Não sei porque continuam a fazer filhos, as crianças não têm culpa. Nascem para sofrer!” – tive que lhes dar razão.
Mais uma paragem numa estação ou apeadeiro e entra uma senhora à procura de lugar. Senta-se ao lado da que traz o padrão floral em fundo azul celeste. O marido segue-a, mas não tem lugar e recua. A senhora do padrão oferece-se para sair e vagar o lugar. Mas a gentileza é recusada quando percebem que esta não vai sair na próxima: “Então, qual é o problema? O seu homem ficava ao pé de si. Agora não tenho homem. Mas quando tinha, ele gostava de estar ao pé de mim. Era muito fraco, não valia nada, mas gostava de estar ao pé de mim.” Sorrimos todas com ela, mas, ainda assim, a mágoa era evidente.
Com aproximação do destino, levantaram-se. Despedidas feitas, a de cinzento ficou para trás e disse-me: Olhe, você desculpe qualquer coisinha! Peço desculpa por algumas coisas que dissemos aqui, está bem? Agora tenho que ir para lhe dizer alguns “améns”, ela não pode usar saias tão curtas!
terça-feira, 26 de agosto de 2014
A fina arte do trocadilho
Acabam-se as férias, recomeça o carsharing:
- Tenho que ir meter gasóleo, dava para ir e vir amanhã. Mas decidi que tratava disso hoje. Pode ser ou estás com pressa?
- Pode ser, sem problema.
Chegadas à bomba e, as usual, nenhuma das agulhas do lado do depósito está desocupada. Não me preocupo, vou para a que está livre. Nem me passou pela cabeça que ela soubesse de que lado era a abertura do depósito:
- Olha, mas não é do outro lado?
- É, mas não há crise. Já estou habituada, são muitos anos e já domino. É só encostar mais um bocadinho e chegar à frente.
- Já dominas a arte de puxar a mangueira, é isso?
- É!
Vou pagar e demoro um bocadinho mais do que o previsto devido ao incidente da senhora da bomba três:
- Então?
- Aquela senhora está aflita. Abasteceu e agora não consegue tirar a agulha do depósito. Foi lá dentro pedir ajuda. E a funcionária disse-lhe que "se entrou, tem de sair".
- Às vezes essas coisas acontecem, entram e custam a sair.
- Sim, já me aconteceu. Foi com um testo e um tacho. Mas resolvi o problema. É tudo uma questão de lubrificação.
- Tenho que ir meter gasóleo, dava para ir e vir amanhã. Mas decidi que tratava disso hoje. Pode ser ou estás com pressa?
- Pode ser, sem problema.
Chegadas à bomba e, as usual, nenhuma das agulhas do lado do depósito está desocupada. Não me preocupo, vou para a que está livre. Nem me passou pela cabeça que ela soubesse de que lado era a abertura do depósito:
- Olha, mas não é do outro lado?
- É, mas não há crise. Já estou habituada, são muitos anos e já domino. É só encostar mais um bocadinho e chegar à frente.
- Já dominas a arte de puxar a mangueira, é isso?
- É!
Vou pagar e demoro um bocadinho mais do que o previsto devido ao incidente da senhora da bomba três:
- Então?
- Aquela senhora está aflita. Abasteceu e agora não consegue tirar a agulha do depósito. Foi lá dentro pedir ajuda. E a funcionária disse-lhe que "se entrou, tem de sair".
- Às vezes essas coisas acontecem, entram e custam a sair.
- Sim, já me aconteceu. Foi com um testo e um tacho. Mas resolvi o problema. É tudo uma questão de lubrificação.
Coração que não vê também sente
Se todos dizem que é o coração que sente, que sofre, que se comove, que
se solidariza, quem sou eu para negar a analogia. O máximo que posso dizer é
que há gente sem coração. Há gente que deixa apodrecer o coração. E por
mais pena que tenha, não posso fazer nada. Até posso oferecer a minha
compaixão a quem não a merece, mas não a posso dar a quem não a quer ou a
quem não precisa da compaixão de ninguém. Pior do que terem pena de
nós, é termos pena de nós próprios. E quando negamos o que somos,
perdemos o respeito por nós e, assim, dificilmente nos respeitam.
Aos vinte, vira!
17 anos de UBI e almoço em Aveiro: vens de comboio e depois segues connosco para Guimarães, domingo vamos à feira de velharias. E lá fui eu de comboio. Chegada atribulada com subidas e descidas ao toque de telefonemas indicativos na Avenida Dr. Lourenço Peixinho. Mas cheguei. Fui a última e isso tem o inconveniente da entrada "em destaque":
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Tenho dito!
Juro, um dia, se voltar a ouvir a combinação "com nós", irei levantar-me e, enquanto esbofeteio o emissor da frase, gritarei: É CONNOSCO, CARALHO! Até o corrector do word sabe isso! Mas hoje não foi o dia, tive medo que se juntassem a mim para almoçar. E quem convida, paga...
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Uma coisa gira para fazer!
1° passo:
Acedam a uma página ou blogue de alguém que conheçam. O ideal é que tenha muitas imagens. Copiem o link.
2° passo:
Abram este link e colem o link copiado na caixinha (parece uma caixa de pesquisa) e cliquem no botão que diz Meowbify it. Vejam o resultado!
3° passo:
Copiem o link da página ou blogue "remodelado" e enviem ao dono com o alerta de possíveis hackers no pedaço.
Ou
Copiem o link da página ou blogue "remodelado" e enviem ao dono com a mensagem: a tua página/o teu blogue foi meowbified.
Ou
Não façam nada e apreciem.
Acedam a uma página ou blogue de alguém que conheçam. O ideal é que tenha muitas imagens. Copiem o link.
2° passo:
Abram este link e colem o link copiado na caixinha (parece uma caixa de pesquisa) e cliquem no botão que diz Meowbify it. Vejam o resultado!
3° passo:
Copiem o link da página ou blogue "remodelado" e enviem ao dono com o alerta de possíveis hackers no pedaço.
Ou
Copiem o link da página ou blogue "remodelado" e enviem ao dono com a mensagem: a tua página/o teu blogue foi meowbified.
Ou
Não façam nada e apreciem.
Probabilidade ou previsibilidade?
Novidades? Não há novidades. Até há, não têm é interesse e novidade que é
novidade precisa de ser interessante aos olhos de quem a pede. Mas
posso dizer-te que cortei o cabelo, vi o Adolfo Luxúria Canibal a pôr
música no Armazém do Chá, apanhei a maior desilusão da minha vida -
Apanhei? Os sinais estavam lá todos. Pior é o cego que não quer ver. -,
finalmente consegui ir ao Museu Nacional de Arte Antiga e ver ao vivo e a cores
"As Tentações de Santo Antão" do Bosch, a P. acabou a curta e vi o meu
nome na ficha técnica, fui ver os Pixies, disse adeus ao dinheiro e desisti do mestrado por falta de confiança na instituição privada de ensino, comprei os Ray-Ban, assisti a um jogo da selecção até ao fim, cheguei a
andar com as unhas pintadas de amarelo, fui às Curtas de Vila do Conde,
fiz Zumba pela primeira vez, a O. conseguiu convencer-me a ir à noite de
poesia, perdi o medo e comi lampreia pela primeira vez em Montemor, comprei um
biquíni novo, andei pelo Algarve, onde comi um Dom Rodrigo e coentros no
arroz de marisco, reli "O cão dos Baskervilles", peguei na
"Correspondência de Fradique Mendes" e decidi reler "A Morte de Ivan
Ilitch". Casa pintada, quadros e andorinhas afixadas. Finalmente juntei
os meus amigos para jantar em minha casa, fiz uma tatuagem nova e já
planeei a próxima, continuo a ouvir os Clash para me lembrar de reagir. O facto de não gostar de Ala dos Namorados não me impediu de ir a Águeda
só pela companhia. Conheci a Alice e o Vicente. Os laços de sangue são
sobrevalorizados e o que me une aos outros está para além disso. Os meus
sobrinhos, os de sangue e os emprestados, dão-me muitas alegrias. E, ao
contrário do que seria normal, eles é que me protegeram muitas vezes. A
dificuldade em engordar passou a facilidade em emagrecer. Estou a tomar vitaminas. Comprei um
par de calções brancos, resgatei o blazer azul de botões dourados e usei
a blusa sem costas. Fui a um workshop de automaquilhagem. Descobri que posso morar em qualquer lado, mas a cidade do Porto é a minha casa. Quero que o amor se foda e continuo a não achar piada a homens demasiado
bonitos. O mar faz-me falta, gosto mais da minha versão bronzeada, o azul
continua a ser a minha cor preferida, o Chance Eau Fraiche da Chanel será
sempre o meu perfume de eleição e mantenho o fascínio por crânios e
ossadas pela certeza de sermos todos iguais por dentro. E tu, novidades?
- Fui novamente ao Peru e voltei a achar piada ao guia... sou tão previsível!
- Fui novamente ao Peru e voltei a achar piada ao guia... sou tão previsível!
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Pay attention
E o que é o bom senso? O bom senso é algo que nem sempre reflecte a
minha vontade e cuja aplicabilidade não se funde em fanatismos, nem
envereda por evangelizações forçadas.
Eu nem quero ver!
V. - E o Tony Carreira que se separou?! O mulherio vai andar louco! Já estarão abertas as inscrições para a nova Sra. Carreira? Mas ele devia ter-se divorciado mais cedo, os filhos já lhe fazem sombra em matéria de atracção ao sexo oposto!
Z. - Estava precisamente a ver isso!
V. - Vai ser o fim do mundo.
Z. - Vão chover currículos!
V. - E com fotos!!!
Z. - O Tony já veio cá à rádio, há uns largos anos, para uma entrevista...
V. - É simpático?
Z. - Até é simpático... tu não imaginas a confusão que foi aqui nas instalações, elas (as malucas) vieram aqui para a porta às dezenas!
V. - Ai jesus!!! Tipo romaria?
Z. - Mas quando foi o filho, o Mickael, foi pior! Nem eu sabia que ele vinha cá... fiquei a saber com a chegada de meia dúzia de malucas que se apoderaram da entrada!
V. - Que filme!
Z. - Tu não estás a ver!!
V. - Fónix, nem quero ver! Deve ter sido o terror, chega-me o teu relato para imaginar o fim do mundo em cuecas!
Z. - São as fãs, são as fãs...
V. - As fãs têm razões que a própria razão desconhece!
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Pinturas de Guerra III
Chegou a vez da máscara de pestanas e “podemos escolher entre as que alongam e as que dão volume aos cílios ou podemos usá-las ao mesmo tempo” – Olha, não sabia. Pensei que uma anulava a outra. Não pensei nada, nunca pensei na razão. Só achei que não dava.
Escolhi a que alonga e passamos à aplicação. Nesta etapa não adivinhava qualquer complicação. Enganei-me:
- Estás com a escova ao contrário!
- Ah?!
- V., está ao contrário!
- Ao contrário, como assim?!
- A curvatura da escova é para baixo!
- Ah?!
- Dá cá isso… é assim!
Pestanas alongadas e, logo a seguir, preenchimento, contornos e batom nos lábios:
- Vou passar a parte dos lábios.
- Então porquê? Não gosta deste cor-de-rosa? Quer um mais clarinho, mais forte?
- Só uso gloss. Não gosto de usar batom. A razão é a mesma das sobrancelhas: cicatriz! Não é coisa que me incomode, mas prefiro não sinalizá-la. Vidas, o Joaquin Phoenix também tem uma e fica-lhe bem.
Pronto, “quadro” finalizado e graças à grande ajuda das minhas ricas amigas:
- Ficaram tão bonitas!
-Também estás bonita. Tens uma cara bonita, mas tens que engordar! – Diz-me a mesma pessoa que nos saldos me aconselhou a comprar a camisola e “aproveitar para andar com a barriga à mostra” porque posso, mesmo não tendo idade para isso.
- Em Setembro, vou regressar ao ginásio para encher um bocadinho (Z., está combinado?).
Escolhi a que alonga e passamos à aplicação. Nesta etapa não adivinhava qualquer complicação. Enganei-me:
- Estás com a escova ao contrário!
- Ah?!
- V., está ao contrário!
- Ao contrário, como assim?!
- A curvatura da escova é para baixo!
- Ah?!
- Dá cá isso… é assim!
Pestanas alongadas e, logo a seguir, preenchimento, contornos e batom nos lábios:
- Vou passar a parte dos lábios.
- Então porquê? Não gosta deste cor-de-rosa? Quer um mais clarinho, mais forte?
- Só uso gloss. Não gosto de usar batom. A razão é a mesma das sobrancelhas: cicatriz! Não é coisa que me incomode, mas prefiro não sinalizá-la. Vidas, o Joaquin Phoenix também tem uma e fica-lhe bem.
Pronto, “quadro” finalizado e graças à grande ajuda das minhas ricas amigas:
- Ficaram tão bonitas!
-Também estás bonita. Tens uma cara bonita, mas tens que engordar! – Diz-me a mesma pessoa que nos saldos me aconselhou a comprar a camisola e “aproveitar para andar com a barriga à mostra” porque posso, mesmo não tendo idade para isso.
- Em Setembro, vou regressar ao ginásio para encher um bocadinho (Z., está combinado?).
domingo, 17 de agosto de 2014
Coisas que me passam pela cabeça
Assim que dou (faço?) pisca para entrar, o automobilista lá ao fundo, que até vem no seu vagar, acelera. Começo a achar que o meu pisca está ligado, intimamente ou por wireless, aos aceleradores dos outros. O meu carro tem um ar fofinho e familiar, não é um desportivo. Não percebo porque se incomodam. E não venham com o "todas as mulheres fazem isso". Normalmente, o outro automobilista é homem e também nunca nenhuma mulher reclamou comigo por estar a cumprir o limite de velocidade, por isso: PISS OFF!
Mob wives
Estive a ver o Mob Wives no TLC. É um reality show sobre mulheres ligadas a homens que estão ou estiveram presos por actividades mafiosas. E, meu Zeus, tanto drama! São assustadoras. E não é só por causa do excesso de maquilhagem e cirurgias plásticas. Para estas senhoras, a violência verbal e física é solução para tudo. O terror infligido é tanto que os maridos mafiosos, quando querem passar a ex-maridos, mandam o advogado abordar o assunto.
Uma das senhoras, viciada em "sleeping pills", resolveu fazer uma desintoxicação. A primeira sessão em grupo foi uma "anger management". Ela lá disse do que tinha medo e do que tinha raiva. Isto fez-me pensar: realmente, dois sentimentos tão díspares e capazes de se accionarem mutuamente. Nunca me tinha ocorrido. Outra coisa que aprendi, alimentar a raiva faz-nos perder o poder sobre a nossa vida porque passamos a viver em função do objecto da raiva. E, pronto, tal como eu já digo há alguns anos, o gosto pela leitura cultiva-se. E, para isso, mesmo que o livro seja mau, vale sempre a pena ler. Ou seja, vale sempre a pena ver reality shows, aprende-se sempre qualquer coisa. Até pode ser como não fazer.
Depois de ver isto, fiquei em modo mob wife e vou tentar convencer a P. a realizar uma curta com inspiração mafiosa. Não preciso de ser protagonista, nem figurante. Não conseguia dizê-las sem me rir. Mas alguém tem de usar estas frases:
- Não ameaço, prometo. E quando prometo, cumpro. E se cumpro, é porque faço. Fica o aviso.
- Tão caladinhos que estamos hoje. O gato comeu-te a língua ou deixaste os tomates nas outras calças?
- E tem cuidadinho: fodo-te a ti e aos teus amigos! - esta é para ser dita com o dedo indicador quase a tocar no nariz da outra pessoa.
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