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segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Não me arrependo, mas tenho vergonha
Vou escrever isto aqui, mas não é para andar a espalhar. Os meus pais são do campo, esta informação é para contextualizar. Nas Fontainhas, onde morei até aos cinco anos, o quintal deu-nos a possibilidade de ter galinhas, garnizés e coelhos. Também tínhamos uma pereira e penca para o Natal. As minhas tias, que ainda se mantiveram no campo, às vezes, davam-nos galinhas e coelhos para juntar à nossa criação e futuro consumo. Depois, fomos morar para um apartamento entre a Avenida da Boavista e o Campo Alegre. E, as minhas tias, continuaram a dar-nos coelhos e galinhas. Vivos. Infelizmente o problema não era só das minhas tias, que também davam pencas, laranjas, tangerinas, uvas e ervilhas de quebrar. Os meus pais também não eram bons de todo. Mantinham o bicho vivo durante uma semana, nunca percebi porquê. Certo dia, a minha rica mãe, comprou uma galinha viva no Bolhão. Como já era tradição, a bicha foi poupada ao tacho durante uma semana. Não sei o que havia de diferente na bicha, mas tocou-me. Afeiçoei-me. Resolvi dar-lhe a melhor semana que um galináceo pode ter. E o melhor incluía passeá-la, de cordel ao pescoço, pela Rua João grave e arredores. Sem os meus pais saberem, eles não eram muito bons. Mas não chegavam a tanta loucura. Agora vi isto e fico triste por nunca me ter lembrado de a vestir. Era Verão, eu sei. E acho que só sabia bordar, ainda não tinha chegado ao tricot. Teria sido muito fixe.
Também tenho histórias semelhantes com Marreco, o pato, e Branquinho, o coelho.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Demis Roussos
Fartei-me de ouvir isto em miúda. Ouvia o que me davam e também respondi muitas vezes à pergunta: Diz lá, era ou não era mais bonita que a Amália?
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
A propósito do Dia do Animal
| Estes dois gatinhos estão para adopção. Se não puder adoptar, ajude estes e outros animais ligando para o número solidário da Vivanimal: 760 501 526 (Mais informações em www.facebook.com/vivanimal) |
Foi ainda nas Fontainhas que tive o meu
primeiro bicho. Era um gato que, a bem dizer, não era nosso. Apenas
parava mais no nosso quintal do que no das vizinhas. O Bibi era um gato
laranja às riscas brancas. São, ainda hoje, os meus preferidos.
Não era persa, não era siamês, não era nada. Mas era deste europeu comum que eu mais gostava!
O meu amor por ele era tão grande que quis
demonstrar toda a sua grandeza num abraço. No desespero da fuga de tal
aperto, o Bibi arranhou-me o globo ocular esquerdo. E lá foi a minha mãe
para o hospital comigo e com a promessa de nunca mais o abraçar. De
regresso e com uma pala no olho, procurei o Bibi para lhe contar a
aventura hospitalar. Com a minha pala à Camões fiz sucesso no colégio. E
isso, graças ao meu adorado gato!
Quando mudamos de casa, o Bibi ficou. As
vizinhas continuariam a tratar dele e dos outros que por ali andavam.
Afinal de contas, era um gato de rua e não de apartamento. E eu não
mandava. Nas visitas posteriores à mudança, assim que chegava, procurava
por ele. Mas houve um dia que não o vi mais.
Neste Dia do Animal quis recordar o meu
primeiro gato, o meu lindo Bibi. Tratem bem a bicharada, eles merecem e
retribuem. Sempre!
Mais um texto do anterior blogue.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
O S. João é para a semana
O São João
nas Fontainhas não era brincadeira de crianças! Fazer uma cascata São Joanina
não estava ao alcance de todos. E nós estávamos em desvantagem em relação aos
“1500″ filhos da Dona Fátima. Eu, a minha irmã e o meu irmão, que na altura era
um bebé de meses, não reuníamos as aptidões necessárias para o bricolage. Para
angariar o tostãozinho para o São João tínhamos apenas um boneco e muita lata.
Era mais do que óbvio que precisávamos de sorte.
Já tínhamos
um boneco do São João e a Dona Gusta arranjou-nos outro boneco, mas este, ao
contrário do nosso, era a representação do Santo António. Logo, quando pedíamos
o tostãozinho para o São João, tínhamos que ouvir o sermão do Santo António e
fazer cara de peixe: olhos arregalados e boca aberta como se fosse a primeira
vez que ouvíamos tal coisa. Foi divertido, o sermão é que era chato. Mas
argumentamos sempre que aquele era o São João, só estava um bocadinho mais
tapado e era careca. Ainda pensamos em pintar o cabelo no Santo António. Mas o
boneco não era nosso.
Não mudámos
muito a sorte, mas conseguimos endrominar alguns transeuntes.
(repescado do antigo blogue)
(repescado do antigo blogue)
quarta-feira, 27 de março de 2013
Conta-me como foi nas Fontainhas
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| Foto: JMMGomes |
A minha irmã reunia o consenso de todas as velhotas: era a criança perfeita! Inteligente, calada, doente, não corria e não suava. Por mais que tentasse, não as conseguia cativar. O meu cadastro infantil apresentava duas inundações provocadas antes dos cinco anos e em domicílio alheio.
Havia a Dona Teté. Não morava nas Fontainhas. Morava na Alexandre Herculano. Não morava numa casa com quintal. Morava num apartamento com marquise. Uma coisa estranha para mim. Mais estranho ainda era ela chamar o Sr. Alves por “Sr. Alves”. Nunca o conheci pessoalmente. Só passado uns anos é que compreendi porquê. Eu não sei qual era a origem do senhor, só sei, ou melhor, juntei o 1+1 e perguntei à minha mãe: a dona Teté era a ‘outra’! Apesar de todas as senhoras irem à missa, não havia nenhuma que condenasse a Dona Teté. Aliás, ela só não alinhava na sueca porque não sabia jogar.
A dona Laurinda, a que usava peruca e bebia uns copos, tinha um filho e uma nora. Nunca os vi. A peruca era preta e, com o passar dos anos e o aumentar da dose, era-lhe cada vez mais difícil manter a dita no sítio. O cabelo dela era completamente branco, mas tinha cabelo. Podiam ter avisado a senhora que pintar o cabelo era o mais adequado à condição dela. Na altura o meu pai tinha galinhas. Quando tinha um galo, a dona Laurinda não podia saber. Eu e a minha irmã éramos treinadas para enfrentar o interrogatório mais insistente. A senhora adorava cabidela de galo. Quando tomava conhecimento da existência do galináceo, este, invariavelmente, ia parar ao tacho. A dona Laurinda era muito insistente, chegava a oferecer 5 contos pelo bicho e pela almoçarada lá em casa.
Já há algum tempo que não repescava nada do antigo blogue, mas, ao ler Demolições na escarpa após derrocada, lembrei-me das Fontainhas.
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