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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Amor e uma barraca | Capítulo V

Assim que entrou, Rosinha esticou-lhe uma mini. Uma mini de abertura fácil porque, afinal de contas, havia muita terra por lavrar e pouca margem para se perder tempo.

Nada fazia prever tão intensa e irrequieta sessão física. Cajó desdobrou-se entre o sofá sem braços e a cama que range. Chegou a temer pela própria vida que a “idade já não permite tantos malabarismos”. Aliás, só não houve alicerces afectados por se tratar de um moderno monobloco. Mas os dois quase puderam jurar, no momento em que saíram para jantar, que o monobloco terá deslizado alguns centímetros. “É o que acontece quando há terramotos e uma placa mexe-se sobre outra”, explicou Cajó dando uma nova interpretação e utilidade ao que vê nos canais por cabo. E isto impressionou Rosinha que se agarrou ainda mais ao braço de Cajó.


Ele abriu-lhe a porta do táxi, ajudou-a a acomodar-se porque um rabo quarenta em calças trinta e seis dá sempre algum trabalho. Seja pelo rabo em si, seja pela castração de movimentos imposta pelas calças. Cajó contornou a viatura e sentou-se ao volante. Seguiram para a churrasqueira a alta velocidade, a fome apertava. Nunca lá chegaram. Mas não se perdeu tudo. Eternizaram o amor. 


FIM

Nota da autora: Perguntaram-me por estes dois, pensei que bastaria um final aberto para acabar esta história de amor suburbano entre uma manicure e um taxista. Mas não, para duas pessoas esta abertura não era suficiente. Vidas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Amor e uma barraca | Capítulo IV

A introspecção não era o forte de Rosinha, ela sabia disso. Mas, ainda assim, fez um esforço para elencar os prós e os contras das duas decisões possíveis. Não a incomodava lavar o trapinho a mão, mas, na verdade, sempre foi uma pessoa sociável e o convívio nestas coisas tinha o tal “je ne sais quoi” de interesse. A decisão estava tomada, juntou as letras e carregou em enviar:

- keres ka vir???? sempre gostava d ver as tuas habilidadis…… lol
- já tou a ir, cara linda!!!!!!!!!

Tinha todas as indicações e a referência dos vasos com as flores de plástico, mas não foi fácil encontrar o moderno monobloco no meio de todos os contentores. Cajó tocou à campainha e Rosinha não se fez esperar muito. Ali estava ela de verde néon imaculado com pouco para deixar à imaginação. Cajó não se fez rogado e assentou-lhe uma palmada no rabo como símbolo do mútuo acordo. Rosinha retorquiu-lhe o aviso:

- Estás preparado, chérie? Aqui a menina não aceita só o que lhe dão. Gosto de explorar vários pontos de vista. Nem o cansaço me faz baixar os braços. Não aceito desculpas, se a compreensão fosse o meu forte, seria missionária. Mas essa nunca foi a minha posição!

Cajó engoliu em seco e deixou-se levar para dentro.

Nota da autora: Estou a ficar com medo da Rosinha!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Amor e uma barraca | Capítulo III

Não há amor como o primeiro e não é que fosse moça de se gabar, mas aquela resposta era do melhor. Muitas têm SMS à borla, mas a arte e o engenho para as escrever não é para qualquer uma, pensou Rosinha. E se Deus escreve direito por linhas tortas, ela escreveu torto e clicou em enviar:

- lavu kabecas d vex em qdo!!!!!!!!

Cajó lê a mensagem e não perde tempo com a arrebatadora resposta:

- tenx tempu pra + 1 kabeca?????? dizem q bju bem, max guxtava de xaber a tua opiniao.....

- lol...... hj tou d folga!!!! andu em trabalhux dumextikus!!!

- nao prexixax d ajuda?? sei faxer varias koisas, poxu passar-t a panu.......

Os polegares de Rosinha ficam estáticos, ela não sabe o que responder. Ou melhor, sabe o que responder. A verdade é que sente palpitações localizadas e não é o coração que lhe palpita. Só tem que lhe dizer que venha. Mas receia assustá-lo com tamanho desespero. A vida já lhe provou que a sede em demasia por vezes desagua em bicas secas. Sempre que pode, diz à boca cheia que é muito mulher para algumas bicas, mas a ajuda nos seus afazeres vinha a calhar. Já há meses que sentia aquela fisgada no fundo das costas. Sabia bem a origem dela. Ora curvada, ora de joelhos, arranjar unhas não dá saúde a ninguém.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Amor e uma barraca | Capítulo II

Passaram dois dias desde que Rosinha entregou o número de telemóvel ao taxista. E há dois dias que verificava religiosamente o estado de rede do aparelho. Hoje estava em casa, no início do ano as quartas-feiras tinham-se tornado assim. Todos os outros Salões folgam à Segunda-feira, a patroa, mulher com olho para o negócio e não só, decidiu fechar a meio da semana. “Pelo sim, pelo não: depilação em dia e pés sempre arranjados” era um dos conselhos da patroa que Rosinha seguia à risca. Quarta-feira era o dia ideal.

Entretida com a depilação, quase rasgou uma auto-estrada quando ouviu “ò princesaaaaaaaaaaaa tens uma mensagem!” Correu para ler a missiva e verificar o remente:

oi linda k faxes????????
ass. Cajó

Pensou em responder de imediato com um “lavo cabeças de vez em quando”, mas não o podia fazer. Tinha que se mostrar difícil. E tinha que pensar numa resposta misteriosa, não podia perder a oportunidade. Da última vez que tinha encurralado um, só tinha corrido bem porque ele era coxo e teve dificuldade em fugir. Mas assim que se apanhou em campo aberto, foi vê-lo correr como se não houvera amanhã. “Cabrão do manco”, pensou.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Amor e uma barraca | Capítulo I

O despertador vai soando cada vez mais perto até se tornar insuportável. Rosinha levanta-se assarapantada, tinha-se deixado dormir e estava novamente atrasada para abrir o Salão. Todos os dias repetia para si: “Rosinha, Rosinha tens que te levantar mais cedo. Já sabes que precisas de mais de um quarto de hora para enfiares as coxas e o rabo nos jeans”. Já tinha pensado em enviar SMS a si própria, poderiam ser mais eficazes que a ladainha e como são à borla, não tinha nada a perder.

Decidida a abater alguns minutos ao atraso, corre para a praça de táxis. Ao abrir a porta do primeiro da fila, Rosinha fica em êxtase com a figura magra de casaco de cabedal a escorrer pelos ombros e as entradas meticulosamente disfarçadas que quase não deixam ver a dermatite seborreica. Arrepende-se de não dado um jeito às raízes. Mas agora não havia nada a fazer. Responde à pergunta com o nome do sobejamente conhecido Salão: é para o Dente de Leão – Cabeleireiro Unisex. 


Cajó ao perceber a tristeza estampada em tão belo rosto, apresenta-se determinado em sacar um sorriso:

- Então, cara linda, porque está tão triste?
- Nem me diga nada, voltei a atrasar-me para abrir o Salão. Tudo me corre mal, nem ao amor tenho sorte. Valem-me as SMS à borla, não sei o que seria de mim sem elas.
- Vá, anime-se. Vou contar-lhe uma anedota. Uma senhora tinha um namorado que gostava muito da Brigitte Bardot e ela, para assinalar o aniversário do namorado, tatuou um B em cada nádega. À noite mostrou-lhe o rabo e ele, confuso, perguntou: mas... mas... mas quem é o Bob?!

Riram-se os dois que nem grunhos e entretanto chegaram ao Dente de Leão – Cabeleireiro Unisex. Rosinha prepara-se para sair e Cajó atira-lhe: não me quer dar o seu número? Também tenho SMS ilimitadas que preciso de gastar…

Amor e uma barraca | Sinopse

O mundo desabrochou para Rosinha no dia em que conheceu Cajó, o taxista. Atrasada para abrir o Salão, Rosinha vê-se obrigada a abrir os cordões à bolsa e recorrer à praça de táxis. Sem saber, aquela segunda-feira iria traçar-lhe o destino para sempre: “É p’ráonde?”

Amor e uma barraca é uma mensagem de esperança neste mundo de SMS à borla e relata a história de um amor suburbano entre uma manicure e um taxista.