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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Crónicas de uma viagem: Taxistas de lá e de cá - 3

Trajecto Bairro Alto ao ponto X: o altruísmo e a falta de civismo

Tira-se a selfie da noite no Bairro Alto e vamos embora que o dia foi longo e cansativo. Avista-se um táxi e faz-se sinal de paragem, toca a entrar e a acertar o destino. Não se bebeu muito, mas foi o suficiente para soltar o diálogo perante a imagem de três urinadores públicos:


- Que nojo!


- Que foi?


- Não viste? Estavam a mijar na rua. Badalhocos! Que falta de civismo!


- Olhe, ali há pouco, passei por um colega que estava parado para a cliente vomitar.


- Pouca sorte, ao menos que não tenha vomitado no carro…


- E é um carro novinho!


- Coitado…


- Para bem ser, o carro devia ir à desinfestação. Hoje já não vai, só pode ir no sábado de manhã. Domingo está fechado. Segunda tem que ir a uma inspecção e só depois é que o carro pode voltar a trabalhar, Já viram? Quem é que paga o prejuízo? 


Éramos três passageiros e concordamos todos que era fodido, só não foi exactamente por estas palavras… ou terá sido? Mas pronto, sim, o homem disse desinfestação. Toda a gente sabe que para os taxistas os bêbados são praga e o vómito a sua disseminação, logo só faz sentido a desinfestação. 


Palavra puxa palavra e ficamos a saber que no ano novo o senhor traz sempre sacos no carro, que há miúdos a sair de casa com uma roupa, a trocar por outra no carro e a deixar ficar algumas lembranças para trás, que uma vez lhe perguntaram “Sr. motorista não se importa que mude as cuecas” pois a senhora estava a sair de um para entrar noutro trabalho. Até que chegamos à parte do miúdo que se distraiu na noite e não tinha outra forma de regressar a casa a não ser de táxi. O desgraçado não tinha bateria no telemóvel, não sabia o número da mãe e morava já não me lembro onde, mas que era longe para caralho (longe foi o taxista que disse e o caralho acrescento eu para dar ênfase ao dramatismo da narrativa). Levou o puto a casa, mas a mãe não estava. Ciente de que podia ficar a arder, mas confiante na boa acção, regressou sem receber e deixou ficar o cartão (ui, esta merda rima!). A plateia, que éramos nós, ficou extasiada com tamanha bondade e fomos verbalizando a necessidade da existência de mais pessoas a fazer o bem sem pensar em recompensas. Mas, nestas coisas das parábolas, o bem é sempre recompensado! Uns dias depois, a mãe do puto ligou e marcaram encontro no Colombo. Foi a família nuclear toda, não só pagaram a corrida como ainda lhe ofereceram um bolo de chocolate feito pela senhora:


Plateia: OoOoOoH que fofos!


Esta receptividade toda promoveu a divulgação de mais um episódio. Desta feita, a protagonista era uma velhinha que vinha carregada de compras e morava num prédio sem elevador. Sem pensar nas consequências, estacionou em segunda fila e agarrou nos sacos para galgar as escadas. Ao descer, encontrou um automobilista furioso que, ao saber da razão, logo se apaziguou:


Taxista: Nós não sabemos como vai ser connosco. Não sabemos o dia de amanhã! Nós também vamos chegar lá!


Plateia com a fé restaurada na bondade humana: Pois não, fez muito bem! Ninguém ajuda ninguém. Ninguém se põe no lugar do outro! 


Chegados ao destino, pagam-se os nove euros e cinquenta. Verificamos alguma dificuldade em sair porque o homem tinha engatado na contagem de episódios e notou-se o sofrimento por perder tamanha plateia. Lá conseguimos sair, mas não sem antes levar o cartão e deixar a promessa de que não nos riríamos do nome dele.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Crónicas de uma viagem: Taxistas de lá e de cá - 2

Trajecto Santa Apolónia ao ponto X: a pragmática das teorias de comunicação e o tamanho também importa 

Eu: Boa tarde, hotel X… ora deixa lá ver a morada… Avenida Y... por favor?

Taxista: …

Eu: (À espera do resultado das funções de linguagem previstas no modelo comunicacional de Roman Jakobson)

Taxista: …

Eu: Olhe, gosto que me respondam. É uma mania que tenho…

Taxista: Sim, sim. Eu ia responder, estava à espera que acabasse.

Eu: Ah, ok. Já acabei!

Taxista: Boa tarde! Sim, sim, sei onde é.

Eu: Desculpe, sou muito stressada e ainda não entrei no relaxe do fim-de-semana.

Taxista: Pois, pois, claro!

Segundo tripulante: Que grande barco!

Eu: Gostava de fazer um cruzeiro no Nilo!

Segundo tripulante: Também eu, mas este barco é muito grande.

Taxista: Mas ou é um cruzeiro ou não é. Se é para andar de barco, basta o cacilheiro!

(risada geral)

Eu: Tem toda a razão!



Taxista: É aqui o hotel, bom fim-de-semana, boa estadia e aproveitem para relaxar.

Crónicas de uma viagem: Taxistas de lá e de cá -1

Trajecto ponto X a Campanhã: aula de condução e auto-defesa para senhoras

...

- 90% dos capotamentos na VCI, são senhoras!

- Ai sim e porquê?

- É por causa das curvas, não sabem fazer as curvas. Demorei oito anos a ensinar à minha mulher. Oito anos, não foi um nem dois, foram oito anos!

- Normalmente, desacelero antes da curva e quando entro na curva acelero.

- Não é desacelerar, tem que reduzir e não precisa de acelerar na curva. Só acelera se sentir falta de aderência!

...

- É melhor irmos para a frente da estação, aqui nas traseiras andam muitas romenas. E eu não gosto de deixar aqui ninguém, principalmente senhoras.

- Se é assim, é melhor. Ser taxista não deve ser fácil...

- Não, não é. Há uns tempos, encostaram-me uma faca ao pescoço. Eram três indivíduos. Agarrei no revólver e encostei-o à cabeça do que estava ao meu lado: ou saem do carro ou este vai comigo!

- (Ò foda-se, está tudo fodido!)

- Saíram do carro a dizer que estavam a brincar. Tenho muito sangue frio. Já pratiquei boxe, mas estava a fazer-me mal ao cérebro.

- Olha, olha, já cá estamos... quanto é?